Onde limite é a virgula e não o ponto.


Chá com Nêumanne

22/12/2014 09:33

Chá com Nêumanne

 

Meia noite de terça. Encontro-me em ponto equidistante. Entre os extremos dos dias. 

O Nêumanne estava lá. Repleto dele. Dono de si. Inteiro poeta.
Eu cá... Meio que não. Resto dele. Metade de mim. Meio poeta.

Esfriando meia xícara de chá. Permeando pensamentos. Procurando nas palavras um meio para reconhecer o todo. 
Porque na vida até aqui, estou no quase. 
Nasci na média do peso. Fui médio aluno no mediano ensino médio. Tenho média estatura. Envergadura média. Cresci em família de classe média.

Meio ateu meio devoto. Um budista ocidental. Meio hare meio crishina.
Meio bobo meio safo. Um santo safado. Rezando para anjos e demônios em santuário suspeito.
Meio corpo meio alma. Um conjunto incompleto de vontades divergentes. Aquilo que acredito divorciando-se daquilo que faço. Bi-partido. Em cada ação, uma contradição. Acredito em Nietzsche e também em Jesus.

Sou sagitário em corrida meio sem sentido. Meio-corpo atrás de me encontrar. 
Lá em casa me chamam de "Mau", mas todos que conheço me reconhecem bom. Bem ou mal, na média, isso alegra a minha tristeza.  
Na medida que envelheço volto a ser criança. Na medida que esmoreço volto a ter esperança. Sei que uma hora dessas encontrarei tudo. E Peter Pan poderá voar. Talvez na próxima meia-hora. Quem sabe amanhã. Tenho fé que os fins justificaram os meios. E a qualquer momento, este naco de Nêumanne que reside em minhas células multiplicará. E suprirá a metade poeta que está incompleta. E por meiose poete pulmões, rins, fígado e o coração. E por mitose, este mito que promete, tome o resto de minhas entranhas. Espero ansioso que me transmude em carne de sol. Aí, talvez quem sabe eu possa iniciar um destino. Sou daqueles que precisam acreditar na existência de um fim. Para poder assim, renascer em todas as mortes. Todos os dias. Viver neste meio-termo é morrer um pouco a cada dia. Sem significado algum. Sem um fim que me justifique. Não é justo que fique assim.
Estudei biológicas mas gosto mesmo é de humanas. Na média das duas, encontrei as exatas. A lógica para mim é de angustiante beleza. Pois que calcula a verdade e a mentira. Valida a ordem no caos. Nunca compreendi versos trigonométricos. Na matemática que rege a matéria do universo. Sempre fui cinco. E por não saber contar, abandonei os sonetos. 
E enquanto a minha inteligência teima com a burrice. Um Q.I. de médio calibre municia meias palavras.
Por isso, meio que ninguém me entende. E fico interdito. Sujeito a opiniões inacabadas.

Pois é. É isso aí. Estes olhos paulistanos não chegaram ainda a Belo-Horizonte. Muito menos a Campina Grande. Lá onde o Zé aprendeu a ser Nêumanne. Lá onde as gentes celebram sua alegria sem direito a pausa.

O prado dele é graúdo.
A minha vegetação ainda é sítio. 
A sopa de letras que vem da Borborema tem sabor mediterrâneo da Catalunha. A culinária do poeta faz o sertão virar mar e o mar virar sertão. 
O gosto agridoce dos meus escritos são um ainda.

Meia boca, salivando meios-termos. O sabor da minha sopa? É perto de. Mas a cada volta e meia que dou no caldeirão. Sempre a meia volta volver. Falta. Espero por reviravolta. E servir uma mesa farta.

Tenho mãos calosas que me tiraram o tato. Talvez por isso, dou metade do carinho que poderia ao papel. Calo metade das letras que deveria tatuar no alvo. Extasiei ao ouvir a Isabel do Nêumanne. As mãos hábeis preencheram todas as lacunas. Toda imperfeição estava a salvo.  

Está ficando tarde. Escurecendo o dia. Preciso sair da meia-luz. Da meia-vida. Tenho consciência deste início do fim. Sou vespertino de média idade. Aos 40. Sou um ainda.
Um cidadão apartamento. Em meio ao caos urbano. Em uma cidade que parece estar na Idade Média. 
Ainda faço o que meu pai me ensinou lá atrás. Atrás do balcão da Moraes. Foi através dele que encontrei o meio de vida que até hoje habito. E virou meu hábito vender remédio para o povo. Só que eu mesmo não tenho remédio. Sou um irremediável indivíduo médio. 
E este meio em que vivo é um meio ambiente poluído pela Marginal Pinheiros.
Lá no meio da serra onde moro. A Cantareira vai sendo sugada pela seca. E o volume morto cresce, na medida em que a floresta nativa é substituída. Marginalizada por pinheiros de concreto. Do jeito que vai, logo irá parar de cantar. A Serra está ficando sem eira nem beira.
Resido no meio do caminho. No meio do caminho que resíduo. Entre a cidade e a floresta. No morro. Na Estrada da Roseira. Mesma rua em que o Senna nasceu. É lá em meio às rosas que verdejo céu e vermelho inferno. E nos espinhos que existem em toda roseira espeto minha felicidade. Sinto aroma em flor, de mato e de morte. E não há Ades, nem adeus. Somente há partida de mim. Aquela que foi a partitura esquecida. De uma música que me toca. Tema da vitória. Desde o início. Sem fim. Será que ela se foi, ou não? Meio que sim...

Desde menino morando perto do Ayrton. Nunca o encontrei. Será que ele se foi, ou não? Meio que não...
Devo ter pressa, correr à encontrar minha Campina Grande. Preciso logo, logo, encontrar a Serra da Cantareira. Antes que ela esvazie cada gota de esperança. E se acontecer, quando acontecer, toda a gente que mora lá vai beber de que água? De que fonte? Do volume morto? Então, não haverá alegria sem pausa. Não haverá Campina Grande. Não haverão rimas, versos nem estrofes. Sem o ritmo das águas não haverão poemas. Não há poeta onde não há mar...

Farmacêutico, preciso aviar-me. Sem prescrição, irei prescrever. 

Tenho tempo ainda para sair do quase. Estou no intervalo. Entre terça e quarta. Meia noite. Meia xícara de chá. Meio tempo de jogo. É hora de arrumar este meio de campo. E na medida do possível, fazer melhor. Afinal o Nêumanne meio que ficou aqui. Como o tema da vitória meio que está também. 

O chá esfriou demais. Terei que esquentar de novo. Meia hortelã com mate. É bom, experimente...

Este texto ficará assim mesmo. Coxo. Sem mais nem menos. É assim que me reconheço; 

A grandeza do meu amor não me cabe.

A minha grandeza não cabe em tanta mediunidade.

 

É por isso que eu 
luo minguante, 
lágrimo olho esquerdo 
e outono. 

 

Maurício de Carvalho Gervazoni

Imagem: Google Images

Mais:https://www.sem-fronteiras.net/news/papai-noel/

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